22/01/2013 14h00
- Atualizado em
22/01/2013 14h57
Novo reitor da Unesp diz que vai dar condições de igualdade aos cotistas
Em entrevista ao G1, Julio Durigan fala do projeto de cotas na universidade.
Ele diz que Enem precisa melhorar muito para substituir vestibular.
Vanessa Fajardo
Do G1, em São Paulo
Julio Durigan, de 58 anos, é o reitor da Unesp (Foto: Vanessa Fajardo/ G1)
Recém-empossado reitor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) – ele
era vice-reitor, mas exerceu o cargo de reitor em exercício entre 2010 e
2012, depois que Herman Voorwald foi nomeado secretário estadual da
Educação –, o agrônomo Julio Cezar Durigan, de 58 anos, recebeu a
reportagem do G1 para falar sobre os desafios de estar à
frente de uma das mais importantes instituições de ensino do país.
Durigan fez críticas ao Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) que,
segundo ele, precisa ainda de ajustes, e destacou o projeto das
universidades estaduais de São Paulo (Unesp, USP e Unicamp) em criar o seu próprio sistema de cotas.
Em dezembro, o governo de São Paulo anunciou um programa que pretende
garantir reserva de 50% das vagas de cada curso e cada turno das
universidades estaduais paulistas para estudantes vindos de escolas
públicas, a partir de 2014. Ao contrário da lei de cotas do governo
federal, que coloca os estudantes cotistas diretamente nas
universidades, a proposta paulista prevê a criação de um curso de
capacitação destes alunos, no sistema de "college", antes de iniciar a
graduação. A proposta precisa ainda ser analisada e aprovada pelos
conselhos das universidades.
"Chegou-se à conclusão que deveria se pensar rapidamente em um sistema
que trouxesse algumas correções dos problemas que vimos na proposta
federal", afirma Durigan. "Nossa ideia é dar condições para que esse
aluno venha melhor formado para entrar na universidade. De que jeito?
Fazendo algo que seja interessante para a vida dele, um curso de
formação, com certificação, de forma que, se não quiser para
universidade após este curso, ele pode ir para o mercado de trabalho."
"Queremos que os cotistas tenham o mesmo nível dos alunos que entram pelo vestibular. A política federal não prevê isso"
Julio Cezar Durigan, reitor da Unesp
Segundo o novo reitor, metade dos cotistas vai passar por esse college e
o restante cada universidade vai estabelecer um critério para
recebê-los. "Queremos que os cotistas tenham o mesmo nível dos alunos
que entram pelo vestibular. A política federal não prevê isso. Vamos ter
um aluno na medicina que é de altíssimo nível e outro que é baixíssimo
nível. Os dois vão estar na mesma sala, fazendo o mesmo curso. Se não
dermos condições para que eles se aproximem, vamos ter problemas na sala
de aula, não adianta dizer que não. O governo estadual e o Cruesp
[Conselho de Reitores das Universidades Estaduais de São Paulo] pensaram
nisso: vamos melhorar o nível dos cotistas."
"A gente quer fazer a inclusão social de forma que os cotistas tenham
condições de acompanhar o curso oferecido e se forme em igualdade de
condições. O que vai ser muito difícil de ser feito no federal", diz.
Quanto à utilização do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), o reitor
afirma que não pode correr o risco de optar por “um sistema que está
tendo problemas a cada ano”. "O Enem é uma boa ideia de seleção geral,
mas não tem a estabilidade que precisamos. Quando tiver, podemos tentar
adotá-lo. Temos um nome a zelar."
"Existe a possiblidade de um dia substituir o vestibular. Mas esse ‘um
dia’ talvez não esteja muito próximo. Por quê? Temos uma estrutura de
vestibular consagrada, conceituada, com qualidade de seleção muito boa,
compatível com que queremos nos nossos cursos. Nosso vestibular há anos
vem sendo feito com uma qualidade muito boa, posso falar pela Unicamp e
USP também", afirma Durigan.
Durigan com o secretário Herman (Foto: Chello Fotógrafo/Unesp)
Reitor viu a Unesp nascer
Nascido em Taiúva,
cidade de pouco mais de 5.000 habitantes, no interior de São Paulo,
Durigan sempre estudou na rede pública de ensino. Foi para a cidade de Jaboticabal
cursar o ensino médio, onde também aos 17 anos ingressou na então
Faculdade de Agronomia, que anos depois se transformaria em um dos
institutos da Unesp. Mais tarde tornou-se professor da mesma
instituição. Lembra, com carinho, do dia da inauguração da Unesp. Estava
na cerimônia no Palácio dos Bandeirantes, há quase 37 anos, quando o
governador Paulo Egydio Martins anunciou a criação da terceira
universidade pública em São Paulo - no começo uma fusão de 14 institutos
já existentes.
Durigan fez mestrado, doutorado e livre docência em agronomia, e
pesquisou a área de ervas daninhas. Nenhum dos três filhos seguiu sua
profissão - são advogados. Nunca se imaginou reitor da universidade em
que estudou a vida toda. No entanto, agora, de posse do cargo, aposta
que a Unesp, a caçula das universidades paulistas, em até duas décadas
estará no mesmo patamar da Universidade de São Paulo (USP), uma das mais respeitadas da América Latina.
A Unesp conta com cerca de 3.500 professores, mais de 45.000 alunos de
quase 300 cursos de graduação e pós-graduação, em 24 cidades do estado
de São Paulo. Durigan diz que um dos seus objetivos será agregar
características de sustentabilidade na nossa infraestrutura para os
projetos novos e reformas. "Vamos coletar água de chuva, instalar
células que captem energia solar. Queremos prédios com projetos que
permitam boa ventilação para não ligar o ar condicionado nas áreas
comuns. Boa luminosidade natural, para não acender as luzes o dia todo."
Segundo ele, a universidade precisa ser exemplo. "Demoramos 40 ou 50
anos para ser cobrados no quesito acessibilidade porque tem poucas
pessoas no contexto geral da população que precisam da acessibilidade.
Por isso a cobrança veio ao longo de um tempo maior. Já a
sustentabilidade interessa a população toda. A cobrança vai ser mais
pesada em curto espaço de tempo. A universidade tem de antever isso e
vir como exemplo."
A Unesp era uma universidade desacreditada, ninguém botava fé no
modelo. Na época a USP era a senhora USP, a Unicamp era nova, mas já
tinha quase 20 anos e já era estruturada, e a Unesp era uma bebezinha."
Julio Cezar Durigan, reitor da Unesp.
Novos cursos de engenharia
A Unesp está implantando 11 cursos de engenharia em parceria com o
governo estadual. Durigan diz que a universidade deve também passar por
um processo de internacionalização. "Temos um projeto que vai investir
7,5 milhões neste ano para isso. Não dá para deixar a Unesp
‘separadinha’ do restante do mundo." Durigan diz que a meta é mandar
para o exterior cerca de 700 alunos da Unesp por ano. "Temos convênio
com 235 universidades de 50 países. Vamos oferecer 60 disciplinas em
inglês na pós e na graduação."
O reitor diz que para o universitário, ir para o exterior é experiência
de vida e oportunidade de conhecimento. Ele classifica o programa de
intercâmbio do governo federal, Ciencia sem Fronteiras, como um "divisor
de águas". "Muitos meninos bons ficarão no exterior? Sim, vai ocorrer,
mas vai ter um retorno grande de estudantes que voltarão para o Brasil
com outra visão. O país vai ganhar mais do que perder."
| Unesp em números |
|
Cidades |
24 |
|
Faculdades e institutos |
34 |
|
Cursos de graduação |
179 |
|
Cursos de pós-graduação |
118 |
|
Alunos de graduação |
35.929 |
|
Alunos de pós-graduação (stricto sensu) |
10.705 |
|
Professores |
3.543 |
|
Fonte: Anuário estatístico 2011 |
Desafio maior
Outro desafio será dar mais visibilidade à universidade. Segundo
Durigan, a Unesp era uma universidade desacreditada. "Na época a USP era
a senhora USP, a Unicamp era nova, mas já tinha quase 20 anos e já era
estruturada, e a Unesp era uma bebezinha. E agora em 36 anos a Unesp
está na cabeça dos rankings, como as melhores do mundo."
Ele destaca que a Unesp é a primeira entre as maiores (com mais de 100
cursos) avaliadas no Enade [Exame Nacional de Desempenho de Estudantes],
a segunda no Guia do Estudante com maior número de cursos estrelados, é
a segunda com maior número de doutores formados por ano e programas de
pós-graduação.
"Em muitos quesitos já passamos a Unicamp que estava sempre na nossa
frente. E a Unesp dentro de 10 e 15 anos, talvez seja a primeira do
Brasil, vai estar disputando com a USP. Nós crescemos muito rapidamente e
ganhamos qualidade."
Fonte: G1.com