A proposta do governo federal de ampliar a duração dos cursos de
medicina no Brasil pode fazer com que o país passe a exigir no mínimo
oito anos de estudo e prática dos estudantes para que eles consigam o
diploma e o registro profissional de médico. O novo currículo aproxima o
Brasil de países como Estados Unidos e África do Sul como os que exigem
o maior período até que um médico seja permitido a
exercer a profissão, segundo levantamento feito pelo
G1 das regras de formação na área em 15 países.
Em todos eles, o curso de medicina é um dos mais compridos, exigentes e
concorridos --em nenhum dos casos é possível se formar com menos de
seis anos de estudos, como é a realidade brasileira atual. Além disso,
todos preveem que, antes de receber o diploma e o registro profissional,
o médico em formação tenha algum tipo de prática e contato com
pacientes, sob o acompanhamento de professores e médicos já formados.
Essa parte do curso é conhecida como "clínica" e em geral acontece
dentro do hospital, onde os alunos, orientados pelas universidades, são
confrontados com diversos casos médicos e demonstram seu conhecimento
sobre como diagnosticá-los e tratá-los. Antes da obtenção do diploma,
parte dos países exige algum tipo de estágio nos moldes do divulgado
pelo governo neste mês. Em alguns deles, esse trabalho é feito no
formato de serviço social comunitário
(veja a tabela ao lado).
O levantamento considera apenas as fases obrigatórias para que o
estudante receba o registro de médico. Em todos os casos, após essa
etapa, os profissionais ainda seguem estudando em programas de
residência (ou internato, termo usado em Portugal) e outros cursos de
especialização e pós-graduação.
Modelos semelhantes
Os dois casos citados pelo ministro da Educação, Aloizio Mercadante,
como inspiração para o novo modelo brasileiro são o Reino Unido e a
Suécia, que exigem no mínimo sete anos de preparação para a profissão
médica.
Nas escolas britânicas, o curso é dividido em dois ciclos: no primeiro
os estudantes têm aulas teóricas e práticas. No segundo, chamado
Programa de Fundação, eles são alocados em clínicas e hospitais e,
durante dois anos, sempre sob supervisão, demonstram terem aprendido os
fundamentos ensinados na escola. Ao fim do primeiro ano, os supervisores
do aluno decidem se ele está apto a receber o registro definitivo. Essa
fase é administrada pelo Serviço Nacional de Saúde do país.
Na Suécia, os cinco anos e meio de faculdade são divididos em dois anos
e meio de ciclo préclínico e três anos do ciclo clínico. Antes de se
formarem, porém, os estudantes fazem um estágio com duração de 18 meses.
Outros países onde o estudante leva pelo menos sete anos para conseguir se tornar médico são Chile, Grécia e Rússia.
Graduação mais curta no Brasil
Em entrevista ao
G1, o ministro da Saúde, Alexandre
Padilha, afirmou que a inspiração tirada dos demais países foi "a ideia
de implantar dois anos de concentração na atenção básica em saúde e na
urgência e emergência, e que esses dois anos aconteçam no final da
formação".
Segundo ele, o fato de o Brasil passar a ter uma das formações mais
longas entre alguns dos principais países do mundo não significa que o
currículo não possa ser alterado no futuro. "No modelo inglês, primeiro
eles implantaram os dois anos de serviço e depois começaram a reduzir o
primeiro ciclo", disse.
Ainda de acordo com o ministro, as regras do estágio ainda deverão ser
detalhas pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) nos próximos meses.
Existe a possibilidade, por exemplo, de que os dois anos de formação
possam contar como um ano de residência ou pós-graduação. Segundo ele,
os anos extras na graduação poderão, assim, ser descontados no futuro.
Serviço social
Na Grécia, sete anos é a duração da formação em alguns casos, já que a
fase de trabalho antes do diploma só é compulsório para os estudantes
que desejam atuar em hospitais e serviços públicos. Nesse caso, eles
precisam passar por um período de estágio em áreas rurais do país. Quem
pretende atuar apenas em clínicas privadas não precisam passar por isso.
Além da Grécia, o Egito também exige que todo estudante de medicina
atue na área durante um ano antes de conseguir o registro. No caso
egípcio, o trabalho é feito em hospitais mantidos pelo governo.
Na Alemanha, o governo tem incentivado propostas de inovação e
flexibilização no currículo. Por isso, o estágio obrigatório dos
estudantes na área de enfermaria, que dura cerca de três meses, não
precisa ser a última etapa antes da formatura.
No último ano dos cursos de medicina da África do Sul, os estudantes de
medicina, assim como os que estão matriculados em qualquer curso na
área da sáude, precisam cumprir o Serviço Comunitário Compulsório (CCS,
na sigla em inglês). Esse programa foi instituído no fim da década de
1990 para suprir a falta de profissionais da área em várias partes do
país e é mantido pelo Departamento de Saúde do governo do país. No
total, os aspirantes sul-africanos a médicos levam oito anos para
começar a exercer a profissão.
No modelo inglês, primeiro eles implantaram os dois anos de serviço e depois começaram a reduzir o primeiro ciclo"
Alexandre Padilha,
ministro da Saúde
Medicina como pós-graduação
Nos EUA, o curso de medicina só é oferecido no nível de pós-graduação
--é um dos poucos países onde isso acontece. Por isso, um estudante
interessado em se tornar médico no país precisa, primeiro, fazer um
curso de graduação (conhecido por lá como "undergraduate") que contemple
os requisitos para o acesso a uma escola de medicina, como aulas de
ciência.
Além disso, as universidades selecionam seus alunos com base em outros
quesitos, como atividades extracurriculares. A duração da etapa que
precede a formação médica de fato, na grande maioria dos casos, é de
quatro anos.
Depois, os estudantes passam dois anos em salas de aulas e laboratórios
e outros dois conhecendo a profissão de perto, em hospitais, antes de
seguirem para a residência. No total, oito anos são necessários.
Fonte: G1.com