Carlos Sartorato deixa os livros didáticos no cursinho de medicina, onde passa 12 horas de seus dias (Foto: Ana Carolina Moreno/G1)
Para fugir de distrações em casa e aproveitar até o último momento a
ajuda dos professores, candidatos que sonham em cursar medicina na
Universidade de São Paulo (
USP)
passaram a quinta-feira (21) –o antepenúltimo dia antes da primeira
fase da Fuvest– no que alguns deles até chamam de casa: a sala de aula
de um cursinho pré-vestibular em tempo integral na região central de São
Paulo, que dá 68 horas de aula por semana. A primeira fase da Fuvest
acontece neste domingo (24) e mais de 172 mil estudantes estão
inscritos. Os cursos de medicina no campus de Ribeirão Preto da USP e na
Faculdade de Medicina de Pinheiros, em São Paulo, são os mais
concorridos, com 62,91 e 58,57 candidatos por vaga, respectivamente.
No prédio de três andares do Hexag, na Rua da Consolação, alguns dos
jovens que se inscreveram pela primeira, segunda ou quinta vez no
vestibular para a carreira assistiam às aulas ou estudavam por conta
própria em salas de estudo durante a tarde de quinta, penúltimo dia das
aulas de revisão antes da primeira fase.
Enquanto duas garotas liam sozinhas em degraus de escadas, um jovem
esperava por um professor na saída de uma sala de aula com uma apostila,
um lápis e uma borracha na mão. Em uma sala vazia, meia dúzia de
adolescentes descansavam deitados em um sofá improvisado com cadeiras
enfileiradas e uma parede de encosto. Alguns caminhavam descalços pelos
corredores, outros dormiam de bruços nas baias da sala de estudos, e
havia até quem almoçava na cantina, onde também há microondas para quem
leva a marmita de casa. "Passamos mais tempo aqui do que em casa" é a
descrição mais comum que se ouve por ali.
Especializado em medicina, o cursinho tem aulas de segunda a sexta das
7h15 às 19h15, e aos sábados das 7h15 às 15h45. Alguns chegam a carregar
as várias dezenas de livros didáticos em malas de rodinha, mas, como
cada aluno tem sua própria carteira, e as salas com capacidade para até
70 pessoas não são revezadas, muitos os deixam no cursinho. É o caso de
Carlos Sartorato, de 18 anos, que presta a Fuvest para medicina pela
primeira vez neste domingo (24).
Aline Hamai e Carlos se conheceram no cursinho e hoje namoram (Foto: Ana Carolina Moreno/G1)
"Aqui temos o auxílio do professor", afirma o jovem que, no ano
passado, tentou a Fuvest para direito, antes de mudar de ideia e decidir
ser médico. Como se inscreveu apenas em instituições públicas, Carlos
explicou ao
G1 que, se não passar em nenhuma delas,
voltará às salas do cursinho. O melhor dos cenários, para ele, é a vaga
em medicina na USP.
Aline Hamai, de 18 anos, também vai prestar a Fuvest, mas diz que sua
primeira opção é a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Namorada
de Carlos –os dois se conheceram na sala de estudos do cursinho e
começaram a sair há cerca de três ou quatro meses–, ela discorda dele
quando o assunto é repetir a maratona de estudos pré-vestibulares. "Não
tenho essa paciência", explicou ela, que também se inscreveu para as
provas da Unesp e algumas instituições particulares, e pretende já se
matricular em uma delas, se conseguir a aprovação.
Disciplinados, os dois conseguiram manter a rotina de estudos mesmo com
o namoro, e garantem que o trabalho em dupla rende mais. "É até melhor,
porque a gente se ajuda. Ele tem dificuldade onde eu tenho facilidade",
explicou Aline. Carlos admite que ela sabe mais de matemática. Para a
garota, a matéria mais temida é geografia. Mas uma regra eles tiveram
que criar. "Foi a primeira coisa que a gente falou um para o outro: na
hora do estudo a gente fica segregado", disse o vestibulando. Com pouco
tempo livre, porém, os passeios típicos de casal acabam vetados até no
domingo, único dia sem aulas. Segundo Carlos, o "programa de fim de
semana é fazer um simulado da Fuvest".
Thaís e Rafaela: truque para não desanimar é não checar o gabarito (Foto: Ana Carolina Moreno/G1)
Mas nem todos os namoros sobrevivem na vida de um candidato ou
candidata do vestibular de medicina. A jovem Thaís Victor Paes, de 18
anos, namorava havia quase dois anos quando começou o cursinho, mas teve
que escolher entre o namorado e os livros. Ela se mudou de Palmital, no
interior de São Paulo, para a capital para se preparar, e a relação não
resistiu. "Quis terminar porque não estava dando para fazer os dois.
Quem não presta medicina não sabe como é", explicou.
Em 2012, ela prestou enfermagem porque não se sentia preparada para
concorrer a uma vaga em medicina. Como passou na primeira fase, Thaís
decidiu nem aparecer nas provas da segunda. "Nem fiz por medo de
passar", revelou ela, que temia a pressão da família para aceitar a vaga
em vez de voltar ao cursinho. Se passar em uma particular, ela diz que
vai desistir das faculdades públicas. "Não tenho pressa, mas é
torturante ficar aqui o dia inteiro."
Ao lado da amiga Rafaela Costa, também de 18 anos, ela decidiu ir para
casa por volta das 15h30 desta quinta. A estratégia das duas é usar a
apostila de revisão para estudar e reunir as dúvidas da aula da manhã
seguinte, e então procurar os professores para resolver o que não
entenderam. Outro truque usado por Rafaela é não checar o gabarito dos
vestibulares antes da Fuvest. No da Unesp, que aconteceu no último
domingo (17), ela ainda não sabe como foi. "Não conferi, vai que
desanima", afirmou.
Gabriel e Vitor aproveitam todos os minutos possíveis antes da Fuvest na sala de aula (Foto: Ana Carolina Moreno/G1)
Café, café e pílulas de café
Manter a rotina intensa de estudos é impossível, para boa parte dos
candidatos de medicina, sem uma boa dose de ajuda. Entre a maioria dos
vestibulandos no Hexag na tarde de quinta, o café (normal, descafeinado,
com e sem açúcar ou até em pílulas termogênicas compradas em lojas de
suplementos) é o combustível preferido. Três xícaras de café sem açúcar é
a receita que mantém Vitor Fernandes, de 18 anos, em pé durante tantas
horas de estudo. Ele e o amigo Gabriel Belnuvo pretendem frequentar o
cursinho até o último dia antes da Fuvest, por acharem que, com os
professores ao lado, acabam rendendo mais.
Gabriel dorme às 23h e acorda às 5h30 todos os dias, mas diz que não
sente muito sono e evita tomar cafeína. Para relaxar, o jovem diz que
aproveitava as noites de sábado para sair, mas deixou o hábito de lado
por volta de outubro, antes do início das provas. Já Vitor procura
praticar jiu-jitsu duas vezes por semana, à noite, para gastar a
energia. À noite, na cama, os dois ainda assistem a algumas videoaulas
preparadas pelos professores do cursinho antes de pegar no sono.
Mas nem todos os estômagos aguentam tanto café: Michelle Bertoldo, de
18 anos, teve que apelar para chás, bebidas com guaraná e açaí. "Comecei
a ter problemas com gastrite", contou a adolescente que acorda às 5h
para sair da Zona Sul e percorrer o trajeto até o cursinho.
Sua colega de sala Ingrid Melo, de 22 anos, teve problemas piores. A
rotina de dedicação intensa aos estudos, em detrimento de outras
atividades, a deixou com pré-diabetes, além de gastrite. Problemas
familiares também atrapalharam a jovem, que vai prestar a Fuvest pela
quinta vez neste ano.
Nas quatro primeiras tentativas, ela diz que só se inscreveu para
instituições públicas. Mas, neste ano, ela decidiu prestar as provas de
universidades privadas e, se passar, vai estudar em uma delas. Além
dessa mudança, ela procurou ajuda médica para balancear a alimentação,
começou a tomar calmantes fitoterápicos e aprendeu técnicas de
relaxamento e meditação que aplica nas manhãs antes das provas. Seu
rendimento, segundo ela, melhorou nas provas que já realizou.
Mesmo assim, Ingrid pretende frequentar todas as aulas até a última,
que termina às 19h15 desta sexta-feira (22). "Ainda não terminei todos
os exercícios da apostila de revisão", argumentou ela. No sábado (23),
os professores estarão disponíveis em um plantão de dúvidas. Embora
sejam poucos os exercícios que faltam para completar o livro, a
frequência ao cursinho tem um lado psicológico: o da confiança pelo
dever cumprido. "Faz toda a diferença. Vou sair da prova falando que dei
o meu melhor."
Para manter a energia e driblar a gastrite, Michelle e Ingrid bebem chá, açaí e café descafeinado (Foto: Ana Carolina Moreno/G1)
Fonte: G1.com